O sintoma como acontecimento de corpo
Como vocês sabem, esta definição de Lacan aparece apenas uma vez, em seu breve escrito “Joyce, o Sintoma” e foi trabalhada por Miller in extenso em seu curso A experiência do real no tratamento psicanalítico. Resumidamente, podemos dizer que o falasser não é um corpo – como ocorre no reino animal, pois o animal está totalmente identificado a seu corpo – mas ele tem um corpo. Ter um corpo e não ser um corpo quer dizer que ele é também sujeito, portanto afetado pela falta-a-ser que introduz o significante que divide seu ser e seu corpo. Insisto: para ter sintomas, é preciso ter um corpo e não ser um corpo. Os sintomas surgem, na última versão de Lacan, do acontecimento traumático que implica a incidência da alíngua – desses S1 sozinhos, que não formam sistema ou estrutura – no corpo, o que pode ser resumido na fórmula: “o significante é causa de gozo”, ou seja, causa de efeitos que são afetos. Quer dizer, o significante não tem somente efeitos de significado – o próprio sujeito é um desses efeitos –, mas também efeitos de gozo num corpo. Assim, a alíngua veicula o traumático (troumatique) da não relação sexual, deixando efeitos duradouros, marcas desse encontro sempre traumático do qual algo não cessará de se escrever, não cessará de se repetir. É o que diz Miller: “A não relação sexual é o acontecimento lacaniano no sentido do trauma, esse que deixa marcas em cada um – não como sujeito, mas como falante – no corpo, marcas que são sintoma e afeto”. Pensando o final de análise, mas também a finalização de certos ciclos terapêuticos, o fundamental é conseguir provocar um deslocamento em relação à repetição, para que ela não seja a simples reiteração, a repetição cega do mesmo, mas traga algo novo. Isso supõe que não há saída do sintoma. Entramos pelo sintoma, saímos pelo sintoma, morremos com o sintoma – esta é sua nobreza... Como disse, essa caracterização do sintoma corresponde ao sexto paradigma do gozo, o da “não relação”, que tem como ponto de partida o Seminário 20: Mais, ainda. Trata-se da não relação sexual entre Um e o Outro, o que implica que há gozo de um corpo vivo em disjunção com o Outro. Neste paradigma, todos os termos que garantiam a conjunção entre Um e o Outro (O Outro, o Nome-do-Pai, o falo) se revelam como simples semblantes conectores. Já não há estrutura transcendental prévia e autônoma que determine as condições da experiência. Passamos à primazia da prática, na qual é preciso determinar de que maneira se produz, em cada um, a suplência da relação entre Um e o Outro. Miller diz que há duas formas de suprir o laço sexual, frente à inexistência da relação com o Outro: segundo a rotina ou segundo a invenção. A rotina é apegar-se ao Nome-do-Pai, ao universal da cultura, enquanto a invenção é criar algo novo. Entramos aqui na temática das psicoses não desencadeadas. Creio que estas duas formas são cruciais para situar a incidência desta nova perspectiva do sintoma no diagnóstico.
(texto retirado da revista da Escola Brasileira de Psicanálise - Latusa nº 21)