quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A clínica do plano de saúde

A partir deste depoimento, venho descrever uma experiência singular, mas que considero de alta importância para a psicanálise nos dias atuais.
Hoje se discute a psicanálise aplicada em diversos campos de atuação, desde quando esta “vai à rua” inserida em hospitais, escolas e instituições em geral até quando é aplicada na própria Escola de psicanalistas. Fato polêmico, uma vez que nesta aplicação, delimita-se o tempo de análise previamente.
Mas, o que trago para acrescentar, a meu ver, neste hall de psicanálise aplicada é a clínica de plano de saúde que também se trata de um novo espaço no qual se aplica a psicanálise, porém não se assemelha com as anteriormente mencionadas.
Nesta nova modalidade de clínica, o indivíduo chega com um tempo determinado pelo plano de saúde, porém, logo no primeiro contato com o analista, fica esclarecido que este é o tempo que ele poderá desfrutar do plano, mas que o tempo de análise será indeterminado cronologicamente e ele mesmo deverá, se desejar, se responsabilizar pelo curso de sua análise.
Abre-se uma porta para aplicação e extensão da psicanálise e caberá ao analista e ao sujeito em análise enganchar-se no processo. Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de 12 sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo a aproximadamente 3 meses de trabalho ou alternado com sessões particulares ficando esse critério e opção para o sujeito, de modo com que ele tenha de se a ver com a administração da sua análise e das sessões a que tem direito.
A partir disso, nos deparamos com uma nova demanda ou ausência dela. Os indivíduos que chegam, por vezes estão curiosos ou precisavam desse “estímulo” para chegar, mas por outras e muitas outras, só querem usufruir do plano como um modo de gozo. O analista será apenas mais um especialista da lista que eles percorrem. Caberá ao analista mais uma vez se prestar ao lugar de objeto que lhe cabe e saber ouvir de cada um a que foi. Entrarão em jogo os pontos cruciais da psicanálise como a transferência, e o fato de o analista poder escutar quando o sujeito for para gozar e não optar por pagar sua análise.
No entanto, as portas se abrem para muitos que estavam em casa supervisionados e medicados pela clínica psiquiátrica e uma gama de material clínico se oferece ao analista que mergulha nessa clínica que se presta a um saber-fazer com isso.
Inserir um terceiro que sustenta a análise para o indivíduo e depois poder convocá-lo ao trabalho, como se passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita.
Algumas correntes da psicologia questionaram junto ao órgão regional, CRP, o fato das sessões serem limitadas, alegando que os planos deveriam cobrir o tratamento integralmente. No entanto, isso não é questionamento para a psicanálise, uma vez que a questão do pagamento está intimamente ligada ao processo analítico. Outro ponto seria a dificuldade em determinar quem teria o direito e por quanto tempo, o que nos remeteria a uma prática seletiva e de diagnósticos.
Este depoimento vem favorecer a prática atual que não exime o sujeito da responsabilidade de seu tratamento e ainda o aproxima dessa possibilidade.
Nós, analistas temos que escutar para além da psicanálise pura, nos consultórios, para podermos preservá-la. Para isso, temos que nos oferecer ao real que se apresenta e encontrar o manejo para cada prática que surja, uma vez que os tempos modernos se apresentam com novas roupagens e novas modalidades de atendimento para dar conta dessa velocidade.
Saber manejar com o tempo cronológico sem perder o tempo lógico defendido por Lacan que nos trouxe um novo olhar para a clínica.
A clínica do plano de saúde tem sido um exemplo desse manejo, um tempo cronológico é oferecido ao indivíduo ou usuário, mas a ele abre-se uma possibilidade de saber para além disso, calcado em um tempo próprio e singular.
A psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico, aquele nosso conhecido da psicanálise pura.

Marcia Müller Garcez

Texto completo: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O que é ensinar? Uma interlocução entre Psicanálise e Aprendizagem Inventiva[1]

A Educação é um universo de possibilidades que vai desde a discussão sobre sua essência até a tentativa de definir o que deve se ensinar. Da forma ao conteúdo, existe uma dispersão que necessita de referência, para escapar da imensidão e assim ser viabilizada como saber neste campo.
Nesta busca incansável de suprir a necessidade de ensinar, ou ensinar a ensinar, a educação se assemelha a ciência, criando novas didáticas a cada dia para dar conta do que é impossível.
Cada vez mais, a didática se afasta de ser uma arte e passa a não só se assemelhar a ciência, mas também pertencer a ela.
Conforme o pensamento científico transformou-se em modelo da produção de conhecimento, a educação – buscando os mesmos padrões – transformou-se em metodologia. Cada vez mais, os conteúdos a serem ensinados provêm do domínio do conhecimento científico.
A educação está sempre ensinando o que é científico. Onde está o ensino da ética, da estética, teologia e outros ensinos de humanidades? Quando estes aparecem no currículo, estão sempre vinculados a ciência.
Se buscarmos uma nova concepção de aprendizagem, quebrando o paradigma da ciência moderna e das correntes da psicologia cognitiva, encontramos um olhar para o lugar da invenção. Um ponto subjetivo em meio a regras e determinismos.
Neste sentido, aprender não significa uma simples percepção e conhecimento de um objeto, no qual o sujeito e o objeto já estão pré-definidos. Há um processo neste intermédio que sobre a ótica temporal, faz com que a aprendizagem não se limite ao conhecimento do objeto, mas que haja uma problematização.
A colocação de um problema que faz com que em um processo de devir – podemos dizer devir filosófico – a invenção tenha lugar. Não se trata apenas de solucionar problemas, mas de inventá-los.
Assim entendemos, como em um processo de devir, de invenção - divergindo da ciência determinista – um músico compõe, um escultor esculpi, um pintor pinta, um apreciador absorve a arte e um professor ensina.
Esses momentos de invenção não se encontram nas explicações científicas nem nas ciências psicológicas. Só aparecem como derivações ou habilidades da inteligência.
A psicanálise traz contribuições para esta questão, a partir do ponto em que também se difere de uma ciência que quer apresentar respostas e soluções prontas.
A partir do conceito de inconsciente estruturado como linguagem, também aponta para o lugar da subjetividade.
Sob esse prisma, a psicanálise traz reflexões sobre a transmissão e o ensino. Acrescenta que a educação assume a ciência como conteúdo privilegiado para a transmissão do saber e ao fazê-lo, esse discurso passará a condicionar as hipóteses sobre a transmissão do conhecimento.
No entanto, na visão psicanalítica, esse discurso não consegue enunciar totalmente a transmissão, sempre permanecerá uma “sobra” que não se conseguirá teorizar. Esse resto se apresentará como dificuldade de se ensinar tudo a todos. Escapará algo como dedicação e amor que não se ensina didaticamente. Assim, a psicanálise considera que na arte de educar há algo que só pode ser pensado na categoria do impossível.
Esse impossível não está nos moldes da ciência moderna, onde não existem impossibilidades, onde o professor tudo sabe e o aluno aprende com o professor.
A partir dessas duas teorias – Aprendizagem inventiva e psicanálise – proponho uma reflexão sobre o que é ensinar.
Em ambas as teorias, há um apontamento para o subjetivo (descartado pela ciência) e a introdução da questão do tempo como algo de imprevisível neste processo.
Se a arte de educar é da ordem do impossível e não pode aprisionar-se ao modo científico, como se ensina?
Não irei oferecer respostas, já que estas não existem nem para a ciência que se encarrega de tê-las, mas sim propor reflexões na contramão destas respostas , embarcando nas teorias em que ensinar e aprender são processos inacabáveis.


Marcia Müller Garcez


[1] Teoria criada por Virgínia Kastrup, doutora em Psicologia pela PUC-SP e professora do Programa de Pós-graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ.