A partir deste depoimento, venho descrever uma experiência singular, mas que considero de alta importância para a psicanálise nos dias atuais.
Hoje se discute a psicanálise aplicada em diversos campos de atuação, desde quando esta “vai à rua” inserida em hospitais, escolas e instituições em geral até quando é aplicada na própria Escola de psicanalistas. Fato polêmico, uma vez que nesta aplicação, delimita-se o tempo de análise previamente.
Mas, o que trago para acrescentar, a meu ver, neste hall de psicanálise aplicada é a clínica de plano de saúde que também se trata de um novo espaço no qual se aplica a psicanálise, porém não se assemelha com as anteriormente mencionadas.
Nesta nova modalidade de clínica, o indivíduo chega com um tempo determinado pelo plano de saúde, porém, logo no primeiro contato com o analista, fica esclarecido que este é o tempo que ele poderá desfrutar do plano, mas que o tempo de análise será indeterminado cronologicamente e ele mesmo deverá, se desejar, se responsabilizar pelo curso de sua análise.
Abre-se uma porta para aplicação e extensão da psicanálise e caberá ao analista e ao sujeito em análise enganchar-se no processo. Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de 12 sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo a aproximadamente 3 meses de trabalho ou alternado com sessões particulares ficando esse critério e opção para o sujeito, de modo com que ele tenha de se a ver com a administração da sua análise e das sessões a que tem direito.
A partir disso, nos deparamos com uma nova demanda ou ausência dela. Os indivíduos que chegam, por vezes estão curiosos ou precisavam desse “estímulo” para chegar, mas por outras e muitas outras, só querem usufruir do plano como um modo de gozo. O analista será apenas mais um especialista da lista que eles percorrem. Caberá ao analista mais uma vez se prestar ao lugar de objeto que lhe cabe e saber ouvir de cada um a que foi. Entrarão em jogo os pontos cruciais da psicanálise como a transferência, e o fato de o analista poder escutar quando o sujeito for para gozar e não optar por pagar sua análise.
No entanto, as portas se abrem para muitos que estavam em casa supervisionados e medicados pela clínica psiquiátrica e uma gama de material clínico se oferece ao analista que mergulha nessa clínica que se presta a um saber-fazer com isso.
Inserir um terceiro que sustenta a análise para o indivíduo e depois poder convocá-lo ao trabalho, como se passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita.
Algumas correntes da psicologia questionaram junto ao órgão regional, CRP, o fato das sessões serem limitadas, alegando que os planos deveriam cobrir o tratamento integralmente. No entanto, isso não é questionamento para a psicanálise, uma vez que a questão do pagamento está intimamente ligada ao processo analítico. Outro ponto seria a dificuldade em determinar quem teria o direito e por quanto tempo, o que nos remeteria a uma prática seletiva e de diagnósticos.
Este depoimento vem favorecer a prática atual que não exime o sujeito da responsabilidade de seu tratamento e ainda o aproxima dessa possibilidade.
Nós, analistas temos que escutar para além da psicanálise pura, nos consultórios, para podermos preservá-la. Para isso, temos que nos oferecer ao real que se apresenta e encontrar o manejo para cada prática que surja, uma vez que os tempos modernos se apresentam com novas roupagens e novas modalidades de atendimento para dar conta dessa velocidade.
Saber manejar com o tempo cronológico sem perder o tempo lógico defendido por Lacan que nos trouxe um novo olhar para a clínica.
A clínica do plano de saúde tem sido um exemplo desse manejo, um tempo cronológico é oferecido ao indivíduo ou usuário, mas a ele abre-se uma possibilidade de saber para além disso, calcado em um tempo próprio e singular.
A psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico, aquele nosso conhecido da psicanálise pura.
Marcia Müller Garcez
Texto completo: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48