quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre a transferência

 CONFERÊNCIA XXVII – TRANSFERÊNCIA

(Freud 1915-17)

Freud deu nome de transferência à conferência em que abordou a prática, a clínica, a qual se referia como terapia. Não poderia encerrar a série de conferências sem incluir esse fato novo. Freud toma a transferência como novidade, surpresa.

Ele levanta então a seguinte questão: onde os fatores do adoecer darão lugar a influência terapêutica?

A transferência é considerada por ele como característica universal, já que “ deve-se atribuir a toda pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais às pessoas.” A tendência a transferência nos neuróticos é apenas um aumento extraordinário dessa característica.

A transferência é tratada por Freud nessa conferência como um instrumento na estratégia de remover a resistência, não sendo mais eficaz por meio de sugestão ou recomendação. Remover as resistências para tornar consciente o inconsciente.

A resistência deriva de uma repressão que tentamos solucionar ou que se realizou anteriormente. Há um conflito entre essa repressão e a libido, onde o sintoma encontra sua via. Freud nos diz que a solução não seria um desses poderes predominar, mas que eles possam lutar em pé de igualdade, como se ele estivesse localizando um ponto na interseção desse conflito.

O mesmo faz quando coloca o conflito no âmbito social, que no contexto da época, a moralidade predominava. Ele aponta que mesmo se o indivíduo vivesse em uma sociedade com total liberdade sexual (o que podemos facilmente transpor para os dias de hoje), ainda assim o sintoma persistiria, pois não é o fato de uma das tendências triunfar sobre a outra que o conflito seria solucionado. Constatamos essa suposição de Freud nos sintomas modernos – ansiedades, pânicos e outros. O sintoma encontrou caminho mesmo em uma sociedade mais liberal.

Apesar de Freud tentar circunscrever todos os pontos desse fato novo – a transferência – ele se depara com um impasse, algo impossível de saber acerca dela: as neuroses narcísicas. “Em geral, um homem só é acessível, desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razões para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade de ser influenciado até mesmo pela melhor técnica analítica.” Ainda conclui que mesmo mediante o auxílio da transferência, os esforços terapêuticos não tem êxito nas neuroses narcísicas.

Para concluir, ressaltamos no texto o momento em que Freud desloca o trabalho de recordações e a atenção aos sintomas para o fundo da cena, afirmando: “Não é incorreto dizer que já não mais nos ocupamos da doença anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que assumiu o lugar da anterior.” Chamamos essa passagem sobre a neurose de transferência de ficção da psicanálise.

Marcia Müller Garcez