sábado, 10 de dezembro de 2016

A Procrastinação na adolescência e sua relação com o Discurso Capitalista


Temos esmiuçado o texto de Jacques-Alain Miller (2015) ‘Em direção à adolescência’ na Unidade de Pesquisa Clínica e Política do Ato, além de articulá-lo com outras leituras. O texto é uma proposta de Miller como orientação de trabalho para a Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança, mas acaba por abarcar e contagiar toda a nossa comunidade psicanalítica, incluindo o próximo Encontro Brasileiro, intitulado ‘Adolescência, a idade do desejo’.
Um recorte do referido texto e que foi trabalhado por mim, em nossas discussões, diz respeito à procrastinação na adolescência. Após discorrer sobre a adolescênciaenquanto uma construção e toda a controvérsia que a sua definição implica, Miller circunscreve o campo da psicanálise e o que este já se ocupa em relação à adolescência logo de partida, a saber: a saída da infância; a diferença dos sexos; e a imiscuição do adulto na criança. Partimos então, para o que ele vai apontar como novo na adolescência, e consequentemente para a psicanálise, e que decorre de uma mutação na ordem simbólica. Esse novo apontado por Miller implica: uma procrastinação; uma autoerótica do saber; uma realidade imoral; uma socialização sintomática; e um Outro tirânico. Esses cinco aspectos são articuláveis entre si e optei por destacar o discurso da atualidade, a relação de consumo e o elemento pressa – que parece paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir da dinâmica do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos seguir as pistas deste paradoxo pressa x procrastinação. Cabe então, fazer uma passagem rápida pela ideia dos discursos em Lacan.

Os quatro discursos
O primeiro dos discursos a ser explorado por Lacan(1992 [1969-70]) foi o do mestre, apoiado na teoria de Hegel, a partir da dialética do senhor e do escravo. O senhor dirige-se ao escravo, pois é ele quem detém o saber. Ele é essencial para a articulação dos demais e é considerado também como o discurso do inconsciente, pois o comanda, tratando de buscar um saber que escamoteie a verdade do sujeito e renuncie ao resto. Se fizermos um quarto de giro no discurso do mestre, vamos encontrar o discurso da histérica. A problemática apontada por Lacan é que o saber não-todo que o discurso do inconsciente ou do mestre tenta encobrir é justamente aquilo que escapa, o que pode produzir a causa de desejo fazendo com que o funcionamento falhe. É o discurso histérico que fará a passagem da resposta cristalizada do discurso do mestre para a abertura à pergunta sobre o desejo. Uma passagem do enunciado à enunciação.  
Ao fazermos mais um quarto de giro nesses esquemas construídos por Lacan, passamos ddiscurso da histérica, para o discurso do analista, que denota o que ocorre na atividade clínica. Ele muito nos interessa pelo fato de representar o avesso do discurso do mestre, sendo o que pode oferecer uma barreira ao discurso contemporâneo.
O quarto discurso proposto por Lacan, o universitário, situa o saber como agente, como um pretenso saber todo, que produz sujeitos, cuja divisão é desconsiderada. O aluno como objeto a é um produto,sendo aquele que nada sabe e para o qual o saber se dirige. 

Discurso Capitalista e procrastinação
Após ter elaborado a teoria dos discursos, Lacan formula a quinta modalidade, uma variação do discurso do mestre conhecida como discurso contemporâneo ou do mestre moderno: o discurso capitalista. Primeiramente, ainda enquanto teoriza sobre os quatro discursos, ao final do Seminário 17, Lacan situa o discurso universitário como o do mestre moderno (p.195). Em 1972, numa conferência em Milão ele o nomeia de capitalista e apresenta seu esquema. A grande novidade desse discurso é que todos os elementos são articulados apresentando uma nova dinâmica, a partir de uma organização – ou reorganização – das flechas.
Observando o movimento das flechas, percebemos a dinâmica capitalista que denota a relação direta do sujeito contemporâneo com os objetos de consumo, em um acesso imediato. Notamos também que, em relação ao discurso do mestre, a variação se encontra na inversão do lugar do agente e da verdade. O sujeito ($) com suas faltas, dividido, demanda ao significante-mestre (S1) que imediatamente se dirige ao saber (S2), o qual produz os objetos a serem ofertados ao sujeito recomeçando o ciclo, produzindo uma infinitização.
Esses objetos são os gadgets que vemos pululando na contemporaneidade. Se acompanharmos as flechas, vemos um movimento infinito, tal como o afirma Aflalo(2008): “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido” (p. 83). Com este último discurso apresentado, esbarramos no grande paradoxo da lógica capitalista na atualidade: diante da oferta incessante do mestre moderno, algo precisa ser produzido, a fim de suprir a falta, com uma pressa para que a angústia não possa emergir; ao mesmo tempo, o excesso de produção e seu transbordamento de gozo acarretam dificuldades discursivas, que podem ser testemunhadas nas precariedades simbólicas, típicas do século XXI. É uma nova modalidade de discurso que não apresenta apenas uma variação do discurso original – do mestre ou do inconsciente – no intuito de evitação do real, mas demonstra uma organização de ofertas e demandas aceleradas e que na adolescência podemos fazer a leituracomo um “prolongamento da adolescência” apontado por Miller (2015).
É essa mesma velocidade que indica o outro ponto tratado como novo no texto ‘Em direção à adolescência’, que é a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, o saber está no bolso e de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  Não há mais relação com o Outro que passa a ser tirânico, e esse leque resulta nsocialização sintomática. Todos esses aspectos que indicam o que é novo na adolescência – e para a psicanálise na relação com ela – parecem partir dprocrastinação que se dá na contrapartida da pressa que escamoteia o real de uma passagem para o que seria uma vida adulta.


Referências:
AFLALO, AgnèsDiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.

LACAN, JacquesO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].

MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

OBS: TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG DO ICP-RJ COMO FRUTO DE ESTUDO DA UNIDADE DE PESQUISA CLÍNICA E POLÍTICA DO ATO. DISPONÍVEL EM: https://icprj.wordpress.com/2016/10/15/a-procrastinacao-na-adolescencia-e-sua-relacao-com-o-discurso-capitalista/

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O apagar das luzes: suicídios na adolescência



Como pensar na idade do desejo, sem levar em consideração seuefeitos nefastos? Pesquisas apontam que além do crescimento dos suicídios em geral, segundo o Ministério da Saúde, cresce o ritmo em que ele se dá na adolescência. 
Marcela Antelo no texto ‘Idade do Desejo’ ressalta que “o desejo é a consciência do apetite. Que outra evidência real golpeia o corpo na flor da idade que a consciência perturbadora do apetite?” O desejo então, enquanto perturbador, onde o real do sexo se desvela, joga o sujeito na errância e nas vias da pulsãoMiller no texto ‘Em Direção à Adolescência’ vai apontar como novo na adolescência, cinco aspectos: procrastinaçãoautoerótica do saberrealidade imoralsocialização sintomática; e Outro tirânico. Pontos articuláveis entre si atravessados pelo discurso da atualidade na relação de consumo e pressa  paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos entender o paradoxo pressa x procrastinaçãona velocidade do consumo e troca de objetos – gadgets – que vemos pululando na contemporaneidade, tal como o afirma Aflalo: “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido”. Como destaca Miller, a adolescência tem um ponto de partida – a puberdade tratada por Freud em ‘Três Ensaios’ – mas não tem um ponto de chegada. Esse não saber onde chegar, articulado às transformações do corpo e atravessado pelo consumo produz um prolongamento da adolescência. É essa mesma velocidade do discurso capitalista que indica também a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, está no bolso de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  
O suicídio do jovem pode ser só e silencioso, mas pode ser contagiante também. É o que mostra a pequena cidade inglesa, Bridgend, onde ao longo dos anos, desde 2007 até hoje contamos 79 suicídios de jovens, quase todos por enforcamento. Trata-se de um movimento coletivo? Talvez uma cadeia, um contágio sem explicação, com apenas especulações sobre a perda de importância e a queda financeira da cidade, ou de que a própria mídia ao noticiar as mortes seria a motivadora.  Esse é um exemplo de uma solução para o desamparo que se transmitiu por uma via de acesso que serviu a muitos. Um saber que aparece diante da angústia da falta de conectividade com o Outro. Os jovens se conectaram através da morte e do mistério implicado nos seus atos.
Lucíola Macedo toma o termo ‘desenraizamento’ de Hannah Arendt, como “o que convoca a deriva, a errância, um avesso do que amarra”, sendo importante para situar os novos destinos da pulsão de morte. Como pensar o suicídio na adolescência e as possíveis inferências da psicanálise, uma vez que o ato já se revela como posto?
Muitos jovens conseguem, apesar da socialização sintomática e do ‘desenraizamento’, fazer até um modo de vida, uma socialização. Mas, há os que não. Há os que só lhes resta o apagar as luzes, diante do golpeamento no corpo da presença perturbadora do desejo, em sua forma nefastaA fantasia parece não contornar o pulsional intensificado por esse não sabere ter o objeto no bolso pode não dizer nada sem o Outro. Para além de incluir o suicídio na pauta sobre a adolescência, – é preciso falar sobre isso – pensar o que a psicanálise pode oferecer ao adolescente, frente ao desamparo. Não se curvar às dificuldades impostas pelo discurso capitalista e sua pressa, e oferecer lugar à adolescência na cultura e na cidade. Traçar um ponto de ancoragem para que a errância não circule no vazio do saber, e possa se ancorar, ainda que cambaleante, antes do apagar das luzes.

Marcia Müller Garcez

Referências:
AFLALO, ADiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.
ANTELO, M. A idade do desejohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/marcelaantelo.
FREITAS. L. Juventude e trauma: a experiência do desenraizamentohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/luciolafreitas.
LACAN, JO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].
MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre a transferência

 CONFERÊNCIA XXVII – TRANSFERÊNCIA

(Freud 1915-17)

Freud deu nome de transferência à conferência em que abordou a prática, a clínica, a qual se referia como terapia. Não poderia encerrar a série de conferências sem incluir esse fato novo. Freud toma a transferência como novidade, surpresa.

Ele levanta então a seguinte questão: onde os fatores do adoecer darão lugar a influência terapêutica?

A transferência é considerada por ele como característica universal, já que “ deve-se atribuir a toda pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais às pessoas.” A tendência a transferência nos neuróticos é apenas um aumento extraordinário dessa característica.

A transferência é tratada por Freud nessa conferência como um instrumento na estratégia de remover a resistência, não sendo mais eficaz por meio de sugestão ou recomendação. Remover as resistências para tornar consciente o inconsciente.

A resistência deriva de uma repressão que tentamos solucionar ou que se realizou anteriormente. Há um conflito entre essa repressão e a libido, onde o sintoma encontra sua via. Freud nos diz que a solução não seria um desses poderes predominar, mas que eles possam lutar em pé de igualdade, como se ele estivesse localizando um ponto na interseção desse conflito.

O mesmo faz quando coloca o conflito no âmbito social, que no contexto da época, a moralidade predominava. Ele aponta que mesmo se o indivíduo vivesse em uma sociedade com total liberdade sexual (o que podemos facilmente transpor para os dias de hoje), ainda assim o sintoma persistiria, pois não é o fato de uma das tendências triunfar sobre a outra que o conflito seria solucionado. Constatamos essa suposição de Freud nos sintomas modernos – ansiedades, pânicos e outros. O sintoma encontrou caminho mesmo em uma sociedade mais liberal.

Apesar de Freud tentar circunscrever todos os pontos desse fato novo – a transferência – ele se depara com um impasse, algo impossível de saber acerca dela: as neuroses narcísicas. “Em geral, um homem só é acessível, desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razões para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade de ser influenciado até mesmo pela melhor técnica analítica.” Ainda conclui que mesmo mediante o auxílio da transferência, os esforços terapêuticos não tem êxito nas neuroses narcísicas.

Para concluir, ressaltamos no texto o momento em que Freud desloca o trabalho de recordações e a atenção aos sintomas para o fundo da cena, afirmando: “Não é incorreto dizer que já não mais nos ocupamos da doença anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que assumiu o lugar da anterior.” Chamamos essa passagem sobre a neurose de transferência de ficção da psicanálise.

Marcia Müller Garcez

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Psicanálise aplicada à terapêutica: O plano de saúde

O trabalho consiste em abordar a atual discussão sobre a psicanálise aplicada à terapêutica e seus desdobramentos na prática tomados a partir da clínica do plano de saúde. Essa nova modalidade de atendimento, legitimada pelo discurso jurídico para abarcar o sofrimento da civilização contemporânea traz novas reflexões sobre o uso da psicanálise e sobre o desejo do analista frente às demandas sociais. Proposições psicanalíticas - partindo das obras de Freud e Lacan - contribuem para abordar a questão do pagamento e do manejo do tempo disponibilizado pelos planos de saúde.
Como sustentar os princípios da psicanálise sem cair na falsa promessa de cura e como manejar os dispositivos institucionais oferecidos são assuntos tocados nesse trabalho que só pôde ser construído a partir do encontro do analista com essa modalidade clínica.
A nova aplicação da lei sobre os planos de saúde obriga a exercer cobertura também para os tratamentos psicológicos, mas não basta apenas cumprir tal determinação, é preciso contextualizar cada prática - independente da corrente teórica – às exigências institucionais das operadoras de saúde.
O trabalho ainda ressalta os cuidados necessários ao se tentar cumprir tais exigências institucionais. Os princípios éticos devem ser preservados dentro do que cada um se autoriza na sua profissão e para isso é preciso sustentá-los frente ao que é determinado e exigido.
O que trago nessa apresentação, é um pouco dessa experiência, conciliando a prática desse exercício dentro da abordagem psicanalítica. Acredito assim, estar diluindo barreiras entre os variados tipos de abordagens, além de ofertar e dividir as dificuldades e vantagens dessa novidade em nossa atuação profissional.

Marcia Müller Garcez

Resumo do trabalho apresentado na III Mostra Regional de Práticas em Psicologia - CRP RJ (Julho 2009)

Artigo sobre o tema: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A clínica do plano de saúde

A partir deste depoimento, venho descrever uma experiência singular, mas que considero de alta importância para a psicanálise nos dias atuais.
Hoje se discute a psicanálise aplicada em diversos campos de atuação, desde quando esta “vai à rua” inserida em hospitais, escolas e instituições em geral até quando é aplicada na própria Escola de psicanalistas. Fato polêmico, uma vez que nesta aplicação, delimita-se o tempo de análise previamente.
Mas, o que trago para acrescentar, a meu ver, neste hall de psicanálise aplicada é a clínica de plano de saúde que também se trata de um novo espaço no qual se aplica a psicanálise, porém não se assemelha com as anteriormente mencionadas.
Nesta nova modalidade de clínica, o indivíduo chega com um tempo determinado pelo plano de saúde, porém, logo no primeiro contato com o analista, fica esclarecido que este é o tempo que ele poderá desfrutar do plano, mas que o tempo de análise será indeterminado cronologicamente e ele mesmo deverá, se desejar, se responsabilizar pelo curso de sua análise.
Abre-se uma porta para aplicação e extensão da psicanálise e caberá ao analista e ao sujeito em análise enganchar-se no processo. Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de 12 sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo a aproximadamente 3 meses de trabalho ou alternado com sessões particulares ficando esse critério e opção para o sujeito, de modo com que ele tenha de se a ver com a administração da sua análise e das sessões a que tem direito.
A partir disso, nos deparamos com uma nova demanda ou ausência dela. Os indivíduos que chegam, por vezes estão curiosos ou precisavam desse “estímulo” para chegar, mas por outras e muitas outras, só querem usufruir do plano como um modo de gozo. O analista será apenas mais um especialista da lista que eles percorrem. Caberá ao analista mais uma vez se prestar ao lugar de objeto que lhe cabe e saber ouvir de cada um a que foi. Entrarão em jogo os pontos cruciais da psicanálise como a transferência, e o fato de o analista poder escutar quando o sujeito for para gozar e não optar por pagar sua análise.
No entanto, as portas se abrem para muitos que estavam em casa supervisionados e medicados pela clínica psiquiátrica e uma gama de material clínico se oferece ao analista que mergulha nessa clínica que se presta a um saber-fazer com isso.
Inserir um terceiro que sustenta a análise para o indivíduo e depois poder convocá-lo ao trabalho, como se passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita.
Algumas correntes da psicologia questionaram junto ao órgão regional, CRP, o fato das sessões serem limitadas, alegando que os planos deveriam cobrir o tratamento integralmente. No entanto, isso não é questionamento para a psicanálise, uma vez que a questão do pagamento está intimamente ligada ao processo analítico. Outro ponto seria a dificuldade em determinar quem teria o direito e por quanto tempo, o que nos remeteria a uma prática seletiva e de diagnósticos.
Este depoimento vem favorecer a prática atual que não exime o sujeito da responsabilidade de seu tratamento e ainda o aproxima dessa possibilidade.
Nós, analistas temos que escutar para além da psicanálise pura, nos consultórios, para podermos preservá-la. Para isso, temos que nos oferecer ao real que se apresenta e encontrar o manejo para cada prática que surja, uma vez que os tempos modernos se apresentam com novas roupagens e novas modalidades de atendimento para dar conta dessa velocidade.
Saber manejar com o tempo cronológico sem perder o tempo lógico defendido por Lacan que nos trouxe um novo olhar para a clínica.
A clínica do plano de saúde tem sido um exemplo desse manejo, um tempo cronológico é oferecido ao indivíduo ou usuário, mas a ele abre-se uma possibilidade de saber para além disso, calcado em um tempo próprio e singular.
A psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico, aquele nosso conhecido da psicanálise pura.

Marcia Müller Garcez

Texto completo: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O que é ensinar? Uma interlocução entre Psicanálise e Aprendizagem Inventiva[1]

A Educação é um universo de possibilidades que vai desde a discussão sobre sua essência até a tentativa de definir o que deve se ensinar. Da forma ao conteúdo, existe uma dispersão que necessita de referência, para escapar da imensidão e assim ser viabilizada como saber neste campo.
Nesta busca incansável de suprir a necessidade de ensinar, ou ensinar a ensinar, a educação se assemelha a ciência, criando novas didáticas a cada dia para dar conta do que é impossível.
Cada vez mais, a didática se afasta de ser uma arte e passa a não só se assemelhar a ciência, mas também pertencer a ela.
Conforme o pensamento científico transformou-se em modelo da produção de conhecimento, a educação – buscando os mesmos padrões – transformou-se em metodologia. Cada vez mais, os conteúdos a serem ensinados provêm do domínio do conhecimento científico.
A educação está sempre ensinando o que é científico. Onde está o ensino da ética, da estética, teologia e outros ensinos de humanidades? Quando estes aparecem no currículo, estão sempre vinculados a ciência.
Se buscarmos uma nova concepção de aprendizagem, quebrando o paradigma da ciência moderna e das correntes da psicologia cognitiva, encontramos um olhar para o lugar da invenção. Um ponto subjetivo em meio a regras e determinismos.
Neste sentido, aprender não significa uma simples percepção e conhecimento de um objeto, no qual o sujeito e o objeto já estão pré-definidos. Há um processo neste intermédio que sobre a ótica temporal, faz com que a aprendizagem não se limite ao conhecimento do objeto, mas que haja uma problematização.
A colocação de um problema que faz com que em um processo de devir – podemos dizer devir filosófico – a invenção tenha lugar. Não se trata apenas de solucionar problemas, mas de inventá-los.
Assim entendemos, como em um processo de devir, de invenção - divergindo da ciência determinista – um músico compõe, um escultor esculpi, um pintor pinta, um apreciador absorve a arte e um professor ensina.
Esses momentos de invenção não se encontram nas explicações científicas nem nas ciências psicológicas. Só aparecem como derivações ou habilidades da inteligência.
A psicanálise traz contribuições para esta questão, a partir do ponto em que também se difere de uma ciência que quer apresentar respostas e soluções prontas.
A partir do conceito de inconsciente estruturado como linguagem, também aponta para o lugar da subjetividade.
Sob esse prisma, a psicanálise traz reflexões sobre a transmissão e o ensino. Acrescenta que a educação assume a ciência como conteúdo privilegiado para a transmissão do saber e ao fazê-lo, esse discurso passará a condicionar as hipóteses sobre a transmissão do conhecimento.
No entanto, na visão psicanalítica, esse discurso não consegue enunciar totalmente a transmissão, sempre permanecerá uma “sobra” que não se conseguirá teorizar. Esse resto se apresentará como dificuldade de se ensinar tudo a todos. Escapará algo como dedicação e amor que não se ensina didaticamente. Assim, a psicanálise considera que na arte de educar há algo que só pode ser pensado na categoria do impossível.
Esse impossível não está nos moldes da ciência moderna, onde não existem impossibilidades, onde o professor tudo sabe e o aluno aprende com o professor.
A partir dessas duas teorias – Aprendizagem inventiva e psicanálise – proponho uma reflexão sobre o que é ensinar.
Em ambas as teorias, há um apontamento para o subjetivo (descartado pela ciência) e a introdução da questão do tempo como algo de imprevisível neste processo.
Se a arte de educar é da ordem do impossível e não pode aprisionar-se ao modo científico, como se ensina?
Não irei oferecer respostas, já que estas não existem nem para a ciência que se encarrega de tê-las, mas sim propor reflexões na contramão destas respostas , embarcando nas teorias em que ensinar e aprender são processos inacabáveis.


Marcia Müller Garcez


[1] Teoria criada por Virgínia Kastrup, doutora em Psicologia pela PUC-SP e professora do Programa de Pós-graduação do Instituto de Psicologia da UFRJ.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Sobre o termo lacaniano "falasser"

O sintoma como acontecimento de corpo
Como vocês sabem, esta definição de Lacan aparece apenas uma vez, em seu breve escrito “Joyce, o Sintoma” e foi trabalhada por Miller in extenso em seu curso A experiência do real no tratamento psicanalítico. Resumidamente, podemos dizer que o falasser não é um corpo – como ocorre no reino animal, pois o animal está totalmente identificado a seu corpo – mas ele tem um corpo. Ter um corpo e não ser um corpo quer dizer que ele é também sujeito, portanto afetado pela falta-a-ser que introduz o significante que divide seu ser e seu corpo. Insisto: para ter sintomas, é preciso ter um corpo e não ser um corpo. Os sintomas surgem, na última versão de Lacan, do acontecimento traumático que implica a incidência da alíngua – desses S1 sozinhos, que não formam sistema ou estrutura – no corpo, o que pode ser resumido na fórmula: “o significante é causa de gozo”, ou seja, causa de efeitos que são afetos. Quer dizer, o significante não tem somente efeitos de significado – o próprio sujeito é um desses efeitos –, mas também efeitos de gozo num corpo. Assim, a alíngua veicula o traumático (troumatique) da não relação sexual, deixando efeitos duradouros, marcas desse encontro sempre traumático do qual algo não cessará de se escrever, não cessará de se repetir. É o que diz Miller: “A não relação sexual é o acontecimento lacaniano no sentido do trauma, esse que deixa marcas em cada um – não como sujeito, mas como falante – no corpo, marcas que são sintoma e afeto”. Pensando o final de análise, mas também a finalização de certos ciclos terapêuticos, o fundamental é conseguir provocar um deslocamento em relação à repetição, para que ela não seja a simples reiteração, a repetição cega do mesmo, mas traga algo novo. Isso supõe que não há saída do sintoma. Entramos pelo sintoma, saímos pelo sintoma, morremos com o sintoma – esta é sua nobreza... Como disse, essa caracterização do sintoma corresponde ao sexto paradigma do gozo, o da “não relação”, que tem como ponto de partida o Seminário 20: Mais, ainda. Trata-se da não relação sexual entre Um e o Outro, o que implica que há gozo de um corpo vivo em disjunção com o Outro. Neste paradigma, todos os termos que garantiam a conjunção entre Um e o Outro (O Outro, o Nome-do-Pai, o falo) se revelam como simples semblantes conectores. Já não há estrutura transcendental prévia e autônoma que determine as condições da experiência. Passamos à primazia da prática, na qual é preciso determinar de que maneira se produz, em cada um, a suplência da relação entre Um e o Outro. Miller diz que há duas formas de suprir o laço sexual, frente à inexistência da relação com o Outro: segundo a rotina ou segundo a invenção. A rotina é apegar-se ao Nome-do-Pai, ao universal da cultura, enquanto a invenção é criar algo novo. Entramos aqui na temática das psicoses não desencadeadas. Creio que estas duas formas são cruciais para situar a incidência desta nova perspectiva do sintoma no diagnóstico.

(texto retirado da revista da Escola Brasileira de Psicanálise - Latusa nº 21)