domingo, 30 de julho de 2017

Psicoses, nós e remendos

Livro: Psicoses, nós e remendos 

Orelha, por Marcelo Veras.


Explorar os novos ambientes em que a psicanálise possa consolidar seus princípios é uma dos objetivos propostos por Lacan quando lançou, em seu texto sobre a fundação da Escola, a expressão psicanálise aplicada. A pesquisa pelo novo tem como função evitar que o saber analítico se torne datado, distante do mundo que o rodeia. Embora não venha dos bancos universitários, a formação do analista ganha forte apoio quando dialoga com os demais saberes. Esse livro de Marcia Müller Garcez chega ao leitor com a proposta de sustentar a teoria psicanalítica das psicoses privilegiando precisamente o novo e as peculiaridades de um saber fazer tanto do lado da clínica quanto do lado da própria psicose.
Marcelo Veras



Sinopse, pela autora.

O livro trata do tema das psicoses, demarcando o percurso de Lacan e seu avanço no campo da topologia. Conta com casos clássicos onde há o desencadeamento da psicose, como ‘Aimée’ e ‘Schreber’, assim como, o caso do ‘Homem dos Lobos’ que até hoje levanta importantes discussões diagnósticas. Há um investimento no manuseio dos nós, em sua formação borromeana, a partir de sua confecção para circunscrever esse universo topológico. Ao tratar dessa topologia nodal, é possível mergulhar no complexo conceito de sinthoma, trazendo à luz a noção de escabelo a partir de exemplos como: de James Joyce, Salvador Dalí e de uma análise levada a termo, destacando o tema dos finais de análise. O diferencial desta obra está também no uso dos nós como instrumento analítico e de direção de tratamento, considerando casos de psicose, onde ainda não se faz possível uma construção pela via do sinthoma. Nessas situações clínicas a invenção pode estar mais do lado do analista do que do próprio sujeito, podendo o analista fazer uso de um nó-remendo, emergencial, em casos de desencadeamentos eminentes, para que a aposta no sinthoma possa seguir. Para situar tal intervenção, conta-se com dois exemplos clínicos onde se destaca esse remendo operado pelos nossos colegas psicanalistas. Essa obra abarca o ensino lacaniano no que tange ao tema das psicoses, partindo dos seus primórdios – desde a tese de doutoramento de Lacan na psiquiatria – e culminando no derradeiro ou ultimíssimo ensino, onde a prática clínica se orienta pelo real.
Marcia Müller Garcez

 * O livro se encontra no site da Editora Prismas e Livraria da Travessa.


sábado, 10 de dezembro de 2016

A Procrastinação na adolescência e sua relação com o Discurso Capitalista


Temos esmiuçado o texto de Jacques-Alain Miller (2015) ‘Em direção à adolescência’ na Unidade de Pesquisa Clínica e Política do Ato, além de articulá-lo com outras leituras. O texto é uma proposta de Miller como orientação de trabalho para a Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança, mas acaba por abarcar e contagiar toda a nossa comunidade psicanalítica, incluindo o próximo Encontro Brasileiro, intitulado ‘Adolescência, a idade do desejo’.
Um recorte do referido texto e que foi trabalhado por mim, em nossas discussões, diz respeito à procrastinação na adolescência. Após discorrer sobre a adolescênciaenquanto uma construção e toda a controvérsia que a sua definição implica, Miller circunscreve o campo da psicanálise e o que este já se ocupa em relação à adolescência logo de partida, a saber: a saída da infância; a diferença dos sexos; e a imiscuição do adulto na criança. Partimos então, para o que ele vai apontar como novo na adolescência, e consequentemente para a psicanálise, e que decorre de uma mutação na ordem simbólica. Esse novo apontado por Miller implica: uma procrastinação; uma autoerótica do saber; uma realidade imoral; uma socialização sintomática; e um Outro tirânico. Esses cinco aspectos são articuláveis entre si e optei por destacar o discurso da atualidade, a relação de consumo e o elemento pressa – que parece paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir da dinâmica do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos seguir as pistas deste paradoxo pressa x procrastinação. Cabe então, fazer uma passagem rápida pela ideia dos discursos em Lacan.

Os quatro discursos
O primeiro dos discursos a ser explorado por Lacan(1992 [1969-70]) foi o do mestre, apoiado na teoria de Hegel, a partir da dialética do senhor e do escravo. O senhor dirige-se ao escravo, pois é ele quem detém o saber. Ele é essencial para a articulação dos demais e é considerado também como o discurso do inconsciente, pois o comanda, tratando de buscar um saber que escamoteie a verdade do sujeito e renuncie ao resto. Se fizermos um quarto de giro no discurso do mestre, vamos encontrar o discurso da histérica. A problemática apontada por Lacan é que o saber não-todo que o discurso do inconsciente ou do mestre tenta encobrir é justamente aquilo que escapa, o que pode produzir a causa de desejo fazendo com que o funcionamento falhe. É o discurso histérico que fará a passagem da resposta cristalizada do discurso do mestre para a abertura à pergunta sobre o desejo. Uma passagem do enunciado à enunciação.  
Ao fazermos mais um quarto de giro nesses esquemas construídos por Lacan, passamos ddiscurso da histérica, para o discurso do analista, que denota o que ocorre na atividade clínica. Ele muito nos interessa pelo fato de representar o avesso do discurso do mestre, sendo o que pode oferecer uma barreira ao discurso contemporâneo.
O quarto discurso proposto por Lacan, o universitário, situa o saber como agente, como um pretenso saber todo, que produz sujeitos, cuja divisão é desconsiderada. O aluno como objeto a é um produto,sendo aquele que nada sabe e para o qual o saber se dirige. 

Discurso Capitalista e procrastinação
Após ter elaborado a teoria dos discursos, Lacan formula a quinta modalidade, uma variação do discurso do mestre conhecida como discurso contemporâneo ou do mestre moderno: o discurso capitalista. Primeiramente, ainda enquanto teoriza sobre os quatro discursos, ao final do Seminário 17, Lacan situa o discurso universitário como o do mestre moderno (p.195). Em 1972, numa conferência em Milão ele o nomeia de capitalista e apresenta seu esquema. A grande novidade desse discurso é que todos os elementos são articulados apresentando uma nova dinâmica, a partir de uma organização – ou reorganização – das flechas.
Observando o movimento das flechas, percebemos a dinâmica capitalista que denota a relação direta do sujeito contemporâneo com os objetos de consumo, em um acesso imediato. Notamos também que, em relação ao discurso do mestre, a variação se encontra na inversão do lugar do agente e da verdade. O sujeito ($) com suas faltas, dividido, demanda ao significante-mestre (S1) que imediatamente se dirige ao saber (S2), o qual produz os objetos a serem ofertados ao sujeito recomeçando o ciclo, produzindo uma infinitização.
Esses objetos são os gadgets que vemos pululando na contemporaneidade. Se acompanharmos as flechas, vemos um movimento infinito, tal como o afirma Aflalo(2008): “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido” (p. 83). Com este último discurso apresentado, esbarramos no grande paradoxo da lógica capitalista na atualidade: diante da oferta incessante do mestre moderno, algo precisa ser produzido, a fim de suprir a falta, com uma pressa para que a angústia não possa emergir; ao mesmo tempo, o excesso de produção e seu transbordamento de gozo acarretam dificuldades discursivas, que podem ser testemunhadas nas precariedades simbólicas, típicas do século XXI. É uma nova modalidade de discurso que não apresenta apenas uma variação do discurso original – do mestre ou do inconsciente – no intuito de evitação do real, mas demonstra uma organização de ofertas e demandas aceleradas e que na adolescência podemos fazer a leituracomo um “prolongamento da adolescência” apontado por Miller (2015).
É essa mesma velocidade que indica o outro ponto tratado como novo no texto ‘Em direção à adolescência’, que é a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, o saber está no bolso e de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  Não há mais relação com o Outro que passa a ser tirânico, e esse leque resulta nsocialização sintomática. Todos esses aspectos que indicam o que é novo na adolescência – e para a psicanálise na relação com ela – parecem partir dprocrastinação que se dá na contrapartida da pressa que escamoteia o real de uma passagem para o que seria uma vida adulta.


Referências:
AFLALO, AgnèsDiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.

LACAN, JacquesO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].

MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

OBS: TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG DO ICP-RJ COMO FRUTO DE ESTUDO DA UNIDADE DE PESQUISA CLÍNICA E POLÍTICA DO ATO. DISPONÍVEL EM: https://icprj.wordpress.com/2016/10/15/a-procrastinacao-na-adolescencia-e-sua-relacao-com-o-discurso-capitalista/

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O apagar das luzes: suicídios na adolescência



Como pensar na idade do desejo, sem levar em consideração seuefeitos nefastos? Pesquisas apontam que além do crescimento dos suicídios em geral, segundo o Ministério da Saúde, cresce o ritmo em que ele se dá na adolescência. 
Marcela Antelo no texto ‘Idade do Desejo’ ressalta que “o desejo é a consciência do apetite. Que outra evidência real golpeia o corpo na flor da idade que a consciência perturbadora do apetite?” O desejo então, enquanto perturbador, onde o real do sexo se desvela, joga o sujeito na errância e nas vias da pulsãoMiller no texto ‘Em Direção à Adolescência’ vai apontar como novo na adolescência, cinco aspectos: procrastinaçãoautoerótica do saberrealidade imoralsocialização sintomática; e Outro tirânico. Pontos articuláveis entre si atravessados pelo discurso da atualidade na relação de consumo e pressa  paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos entender o paradoxo pressa x procrastinaçãona velocidade do consumo e troca de objetos – gadgets – que vemos pululando na contemporaneidade, tal como o afirma Aflalo: “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido”. Como destaca Miller, a adolescência tem um ponto de partida – a puberdade tratada por Freud em ‘Três Ensaios’ – mas não tem um ponto de chegada. Esse não saber onde chegar, articulado às transformações do corpo e atravessado pelo consumo produz um prolongamento da adolescência. É essa mesma velocidade do discurso capitalista que indica também a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, está no bolso de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  
O suicídio do jovem pode ser só e silencioso, mas pode ser contagiante também. É o que mostra a pequena cidade inglesa, Bridgend, onde ao longo dos anos, desde 2007 até hoje contamos 79 suicídios de jovens, quase todos por enforcamento. Trata-se de um movimento coletivo? Talvez uma cadeia, um contágio sem explicação, com apenas especulações sobre a perda de importância e a queda financeira da cidade, ou de que a própria mídia ao noticiar as mortes seria a motivadora.  Esse é um exemplo de uma solução para o desamparo que se transmitiu por uma via de acesso que serviu a muitos. Um saber que aparece diante da angústia da falta de conectividade com o Outro. Os jovens se conectaram através da morte e do mistério implicado nos seus atos.
Lucíola Macedo toma o termo ‘desenraizamento’ de Hannah Arendt, como “o que convoca a deriva, a errância, um avesso do que amarra”, sendo importante para situar os novos destinos da pulsão de morte. Como pensar o suicídio na adolescência e as possíveis inferências da psicanálise, uma vez que o ato já se revela como posto?
Muitos jovens conseguem, apesar da socialização sintomática e do ‘desenraizamento’, fazer até um modo de vida, uma socialização. Mas, há os que não. Há os que só lhes resta o apagar as luzes, diante do golpeamento no corpo da presença perturbadora do desejo, em sua forma nefastaA fantasia parece não contornar o pulsional intensificado por esse não sabere ter o objeto no bolso pode não dizer nada sem o Outro. Para além de incluir o suicídio na pauta sobre a adolescência, – é preciso falar sobre isso – pensar o que a psicanálise pode oferecer ao adolescente, frente ao desamparo. Não se curvar às dificuldades impostas pelo discurso capitalista e sua pressa, e oferecer lugar à adolescência na cultura e na cidade. Traçar um ponto de ancoragem para que a errância não circule no vazio do saber, e possa se ancorar, ainda que cambaleante, antes do apagar das luzes.

Marcia Müller Garcez

Referências:
AFLALO, ADiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.
ANTELO, M. A idade do desejohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/marcelaantelo.
FREITAS. L. Juventude e trauma: a experiência do desenraizamentohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/luciolafreitas.
LACAN, JO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].
MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre a transferência

 CONFERÊNCIA XXVII – TRANSFERÊNCIA

(Freud 1915-17)

Freud deu nome de transferência à conferência em que abordou a prática, a clínica, a qual se referia como terapia. Não poderia encerrar a série de conferências sem incluir esse fato novo. Freud toma a transferência como novidade, surpresa.

Ele levanta então a seguinte questão: onde os fatores do adoecer darão lugar a influência terapêutica?

A transferência é considerada por ele como característica universal, já que “ deve-se atribuir a toda pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais às pessoas.” A tendência a transferência nos neuróticos é apenas um aumento extraordinário dessa característica.

A transferência é tratada por Freud nessa conferência como um instrumento na estratégia de remover a resistência, não sendo mais eficaz por meio de sugestão ou recomendação. Remover as resistências para tornar consciente o inconsciente.

A resistência deriva de uma repressão que tentamos solucionar ou que se realizou anteriormente. Há um conflito entre essa repressão e a libido, onde o sintoma encontra sua via. Freud nos diz que a solução não seria um desses poderes predominar, mas que eles possam lutar em pé de igualdade, como se ele estivesse localizando um ponto na interseção desse conflito.

O mesmo faz quando coloca o conflito no âmbito social, que no contexto da época, a moralidade predominava. Ele aponta que mesmo se o indivíduo vivesse em uma sociedade com total liberdade sexual (o que podemos facilmente transpor para os dias de hoje), ainda assim o sintoma persistiria, pois não é o fato de uma das tendências triunfar sobre a outra que o conflito seria solucionado. Constatamos essa suposição de Freud nos sintomas modernos – ansiedades, pânicos e outros. O sintoma encontrou caminho mesmo em uma sociedade mais liberal.

Apesar de Freud tentar circunscrever todos os pontos desse fato novo – a transferência – ele se depara com um impasse, algo impossível de saber acerca dela: as neuroses narcísicas. “Em geral, um homem só é acessível, desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razões para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade de ser influenciado até mesmo pela melhor técnica analítica.” Ainda conclui que mesmo mediante o auxílio da transferência, os esforços terapêuticos não tem êxito nas neuroses narcísicas.

Para concluir, ressaltamos no texto o momento em que Freud desloca o trabalho de recordações e a atenção aos sintomas para o fundo da cena, afirmando: “Não é incorreto dizer que já não mais nos ocupamos da doença anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que assumiu o lugar da anterior.” Chamamos essa passagem sobre a neurose de transferência de ficção da psicanálise.

Marcia Müller Garcez

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Psicanálise aplicada à terapêutica: O plano de saúde

O trabalho consiste em abordar a atual discussão sobre a psicanálise aplicada à terapêutica e seus desdobramentos na prática tomados a partir da clínica do plano de saúde. Essa nova modalidade de atendimento, legitimada pelo discurso jurídico para abarcar o sofrimento da civilização contemporânea traz novas reflexões sobre o uso da psicanálise e sobre o desejo do analista frente às demandas sociais. Proposições psicanalíticas - partindo das obras de Freud e Lacan - contribuem para abordar a questão do pagamento e do manejo do tempo disponibilizado pelos planos de saúde.
Como sustentar os princípios da psicanálise sem cair na falsa promessa de cura e como manejar os dispositivos institucionais oferecidos são assuntos tocados nesse trabalho que só pôde ser construído a partir do encontro do analista com essa modalidade clínica.
A nova aplicação da lei sobre os planos de saúde obriga a exercer cobertura também para os tratamentos psicológicos, mas não basta apenas cumprir tal determinação, é preciso contextualizar cada prática - independente da corrente teórica – às exigências institucionais das operadoras de saúde.
O trabalho ainda ressalta os cuidados necessários ao se tentar cumprir tais exigências institucionais. Os princípios éticos devem ser preservados dentro do que cada um se autoriza na sua profissão e para isso é preciso sustentá-los frente ao que é determinado e exigido.
O que trago nessa apresentação, é um pouco dessa experiência, conciliando a prática desse exercício dentro da abordagem psicanalítica. Acredito assim, estar diluindo barreiras entre os variados tipos de abordagens, além de ofertar e dividir as dificuldades e vantagens dessa novidade em nossa atuação profissional.

Marcia Müller Garcez

Resumo do trabalho apresentado na III Mostra Regional de Práticas em Psicologia - CRP RJ (Julho 2009)

Artigo sobre o tema: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A clínica do plano de saúde

A partir deste depoimento, venho descrever uma experiência singular, mas que considero de alta importância para a psicanálise nos dias atuais.
Hoje se discute a psicanálise aplicada em diversos campos de atuação, desde quando esta “vai à rua” inserida em hospitais, escolas e instituições em geral até quando é aplicada na própria Escola de psicanalistas. Fato polêmico, uma vez que nesta aplicação, delimita-se o tempo de análise previamente.
Mas, o que trago para acrescentar, a meu ver, neste hall de psicanálise aplicada é a clínica de plano de saúde que também se trata de um novo espaço no qual se aplica a psicanálise, porém não se assemelha com as anteriormente mencionadas.
Nesta nova modalidade de clínica, o indivíduo chega com um tempo determinado pelo plano de saúde, porém, logo no primeiro contato com o analista, fica esclarecido que este é o tempo que ele poderá desfrutar do plano, mas que o tempo de análise será indeterminado cronologicamente e ele mesmo deverá, se desejar, se responsabilizar pelo curso de sua análise.
Abre-se uma porta para aplicação e extensão da psicanálise e caberá ao analista e ao sujeito em análise enganchar-se no processo. Esse tempo, determinado pela lei sobre os planos de saúde em um mínimo de 12 sessões ao ano, pode ser distribuído semanalmente equivalendo a aproximadamente 3 meses de trabalho ou alternado com sessões particulares ficando esse critério e opção para o sujeito, de modo com que ele tenha de se a ver com a administração da sua análise e das sessões a que tem direito.
A partir disso, nos deparamos com uma nova demanda ou ausência dela. Os indivíduos que chegam, por vezes estão curiosos ou precisavam desse “estímulo” para chegar, mas por outras e muitas outras, só querem usufruir do plano como um modo de gozo. O analista será apenas mais um especialista da lista que eles percorrem. Caberá ao analista mais uma vez se prestar ao lugar de objeto que lhe cabe e saber ouvir de cada um a que foi. Entrarão em jogo os pontos cruciais da psicanálise como a transferência, e o fato de o analista poder escutar quando o sujeito for para gozar e não optar por pagar sua análise.
No entanto, as portas se abrem para muitos que estavam em casa supervisionados e medicados pela clínica psiquiátrica e uma gama de material clínico se oferece ao analista que mergulha nessa clínica que se presta a um saber-fazer com isso.
Inserir um terceiro que sustenta a análise para o indivíduo e depois poder convocá-lo ao trabalho, como se passando das entrevistas iniciais à análise propriamente dita.
Algumas correntes da psicologia questionaram junto ao órgão regional, CRP, o fato das sessões serem limitadas, alegando que os planos deveriam cobrir o tratamento integralmente. No entanto, isso não é questionamento para a psicanálise, uma vez que a questão do pagamento está intimamente ligada ao processo analítico. Outro ponto seria a dificuldade em determinar quem teria o direito e por quanto tempo, o que nos remeteria a uma prática seletiva e de diagnósticos.
Este depoimento vem favorecer a prática atual que não exime o sujeito da responsabilidade de seu tratamento e ainda o aproxima dessa possibilidade.
Nós, analistas temos que escutar para além da psicanálise pura, nos consultórios, para podermos preservá-la. Para isso, temos que nos oferecer ao real que se apresenta e encontrar o manejo para cada prática que surja, uma vez que os tempos modernos se apresentam com novas roupagens e novas modalidades de atendimento para dar conta dessa velocidade.
Saber manejar com o tempo cronológico sem perder o tempo lógico defendido por Lacan que nos trouxe um novo olhar para a clínica.
A clínica do plano de saúde tem sido um exemplo desse manejo, um tempo cronológico é oferecido ao indivíduo ou usuário, mas a ele abre-se uma possibilidade de saber para além disso, calcado em um tempo próprio e singular.
A psicanálise passa a acolher a emergência social sem perder seus pontos de ancoragem e seu manejo clínico, aquele nosso conhecido da psicanálise pura.

Marcia Müller Garcez

Texto completo: http://periodicos.piodecimo.edu.br/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/48