segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Golpe da Classificação Diagnóstica

Pelo segundo semestre consecutivo trabalhei com o documentário 'Infância sob controle' que traz à tona a incidência da medicalização e controle sobre a infância e adolescência. A diferença é que no primeiro momento, meu otimismo predominava, achava que a psicanálise/psicologia sempre poderia intervir sobre o resto que retorna na tentativa de foracluir o sujeito. No entanto, temos vivido tantos absurdos que me peguei preocupada. Tenho lido textos que reforçam o conteúdo do documentário tecendo uma crítica ao próprio DSM, tão criticado por nós. Sim, criticado por nós por classificar demais, contribuir para a medicalização, não ouvir o sujeito, e por isso, desconsiderar a singularidade. Porém, o DSM é atacado agora por uma ciência ainda mais positivista que mapeia o ser humano de forma robotizável. É acusado de ser ateorico, pelo projeto Rdoc -  Research Domain Crtiteria, lançado por Thomas Insel. Talvez fôssemos felizes sem saber, justamente por não querer um determinismo, um saber preditivo. Assim, encontramos um  caminho no furo do "ateorismo" e aprendemos a lidar e trabalhar com críticas construtivas sobre o DSM e nossa prática. Quando Allen Frances abandonou o projeto - DSM V - comemoramos. Não esperávamos o que ainda está por vir. Será que teremos que gritar e usar hashtags #FicaDSM? Mesmo com todos os seus problemas? Preparemo-nos para o golpe da indústria farmacológica e de domínio social, a indústria do controle mental.
Abaixo link do documentário e texto de apoio de Gilson Lannini e Antônio Teixeira.





Marcia Müller Garcez

*imagem:' Lição de Anatomia do Dr. Tulp', Rembrandt.
Texto: http://subversos.com.br/reflexoes-sobre-o-dsm-100-1/

Link documentário:
https://youtu.be/tcELUUqx1w4 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sutilezas que deflagram o excesso no Mito ‘Rei Édipo’


Acostumados a designar a Tragédia Grega, de Sófocles – ‘Rei Édipo’, como um regulador da ordem fálica, o restringimos ao campo simbólico, ainda que Lacan tenha avançado na teorização do ‘Complexo de Édipo’ freudiano, com a inclusão da linguagem e dos significantes. Mesmo passando da lógica do Ter para a do Ser, nos referimos ao drama edípico como o que designa a ordem fálica e mencionamos a usual expressão ‘Além Édipo’ para avançarmos. Assim nos mostra Lacan (2005, p.36) quando eleva a castração ao esquema elementar da divisão do sujeito, onde a barra da proibição incide sobre S e A, elucidando a divisão que resulta na perda irreparável. Porém, tratamos de voltar nosso olhar para o drama, na tentativa de demarcar algo que estaria ‘Além Édipo’ no próprio Édipo. Assim, podemos apontá-lo, já que estamos nos debruçando sobre o feminino, suas sutilezas e excessos, no que tange a Jocasta, entre suas escolhas, funções e conseqüências nesta trama.
Jocasta e Laio entregam seu filho ao Destino, mesmo sabendo o que este lhes reservara. Tal qual a rainha má de ‘A Branca de Neve’, entrega a jovem ao caçador, mas pede seu coração como garantia. Ou mesmo,Cronos que devora os filhos sem deixar rastros para o Destino, tendo este se cumprido, apenas pelo desejo da mulher, de que pelo menos um filho sobrevivesse, matasse e ocupasse o lugar do pai. O que temos no mito de Édipo é uma mãe que entrega seu filho numa suposta castração, sem garantias de que ela se efetivasse, pelo contrário, entrega-o justamente ao Destino já premeditado. Após ter entregue seu filho em nome do amor a Laio – uma vez que o incesto, ao manter o filho no seio da família poderia ser impedido, mas, não o parricídio – Jocasta substitui o rei, quando morto. Recebe em seu lugar, aquele que é aclamado pelo povo por decifrar o enigma da Esfinge, derrotando-a. Não só o acolhe em seu lar, como também, ela o aceita como homem, e dele gera quatro filhos.
Podemos pensar aqui em uma reparação da castração, ou, antes disso, que esta tenha sido apenas suposta, visto que o Destino avisara que o filho retornaria à mãe. No seminário 20, Lacan menciona que pelo fato da mulher ser não-toda, “ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar.” (p.99). Descarta o complementar, que retornaria ao todo, mas ressalta um gozo para além do falo, que pode ser experimentado, mas não dito. Talvez encontremos nos mitos uma dramatização do que seria isso em sua origem. Retiramos da Tragédia, quando o desespero de Jocasta se acentua, à medida que, Édipo, ávido a desconstruir sua história até o S1 que marca seu nascimento: Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação.” (sem ano, p. 124-125). 
Seria o gozo para além do falo, experimentado e que não pode ser explicado? Ou, podemos localizar aí, ainda no suplício para que a verdade não venha à tona, um gozo absoluto que transcende a questão do feminino e do não-todoUm gozo mortífero, louco, que culmina na morte. Devemos demarcar que não se trata aqui da loucura na vertente da psicose ou de A Mulher, mas de um fazer com a castração que não supõe, a inocência ou o não-saber que está apenas para Édipo nas investigações, mas não para aquela que consente em entregar o filho à morte, sem garantias. O Destino se cumpre, trazendo-o como homem, e também de volta ao ventre, com seus filhos, marcando essa entrega não apenas para findar a castração que se repararia no futuro, mas para viver o gozo proibido. Com a revelação daquilo que é mortífero, só resta à Jocasta a morteEnquanto que Édipo efetiva a castração do Outro, com a extração dos próprios olhos, não aqui na visão romântica de que sofrera um golpe do Destino, mas liquidando justamente aquilo que não pode ver: A Mulher em suas faces frente ao horror da castração (reparada) – mulher, mãe e avó de seus filhos. 


Referências Bibliográficas:

Sófocles. Tragédias Gregas. Edições de Ouro, sem ano.
Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
______. O Seminário, livro 10: a angústia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

Marcia Müller Garcez

domingo, 30 de julho de 2017

Cine Veredas!

Prazer em participar!

Próximo Cine Veredas está imperdível.
Documentário sobre Lacan
Debatedoras: Ana Paula Gomes e Marcia Müller Garcez
Dia 01/08
Terça-feira às 20:00hs
Mediador: Carlos Eduardo Leal






https://www.facebook.com/carloseduardolealvs/posts/10213891046418305

Quer saber um pouco sobre James Joyce?

Aqui vai o link de um artigo sobre o escritor Irlandês, James Joyce, a partir da abordagem de psicanálise lacaniana.


http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_10/Joyce_por_ele_mesmo.pdf

Psicoses, nós e remendos

Livro: Psicoses, nós e remendos 

Orelha, por Marcelo Veras.


Explorar os novos ambientes em que a psicanálise possa consolidar seus princípios é uma dos objetivos propostos por Lacan quando lançou, em seu texto sobre a fundação da Escola, a expressão psicanálise aplicada. A pesquisa pelo novo tem como função evitar que o saber analítico se torne datado, distante do mundo que o rodeia. Embora não venha dos bancos universitários, a formação do analista ganha forte apoio quando dialoga com os demais saberes. Esse livro de Marcia Müller Garcez chega ao leitor com a proposta de sustentar a teoria psicanalítica das psicoses privilegiando precisamente o novo e as peculiaridades de um saber fazer tanto do lado da clínica quanto do lado da própria psicose.
Marcelo Veras



Sinopse, pela autora.

O livro trata do tema das psicoses, demarcando o percurso de Lacan e seu avanço no campo da topologia. Conta com casos clássicos onde há o desencadeamento da psicose, como ‘Aimée’ e ‘Schreber’, assim como, o caso do ‘Homem dos Lobos’ que até hoje levanta importantes discussões diagnósticas. Há um investimento no manuseio dos nós, em sua formação borromeana, a partir de sua confecção para circunscrever esse universo topológico. Ao tratar dessa topologia nodal, é possível mergulhar no complexo conceito de sinthoma, trazendo à luz a noção de escabelo a partir de exemplos como: de James Joyce, Salvador Dalí e de uma análise levada a termo, destacando o tema dos finais de análise. O diferencial desta obra está também no uso dos nós como instrumento analítico e de direção de tratamento, considerando casos de psicose, onde ainda não se faz possível uma construção pela via do sinthoma. Nessas situações clínicas a invenção pode estar mais do lado do analista do que do próprio sujeito, podendo o analista fazer uso de um nó-remendo, emergencial, em casos de desencadeamentos eminentes, para que a aposta no sinthoma possa seguir. Para situar tal intervenção, conta-se com dois exemplos clínicos onde se destaca esse remendo operado pelos nossos colegas psicanalistas. Essa obra abarca o ensino lacaniano no que tange ao tema das psicoses, partindo dos seus primórdios – desde a tese de doutoramento de Lacan na psiquiatria – e culminando no derradeiro ou ultimíssimo ensino, onde a prática clínica se orienta pelo real.
Marcia Müller Garcez

 * O livro se encontra no site da Editora Prismas e Livraria da Travessa.