Acostumados a designar a Tragédia Grega, de Sófocles – ‘Rei Édipo’, como um regulador da ordem fálica, o restringimos ao campo simbólico, ainda que Lacan tenha avançado na teorização do ‘Complexo de Édipo’ freudiano, com a inclusão da linguagem e dos significantes. Mesmo passando da lógica do Ter para a do Ser, nos referimos ao drama edípico como o que designa a ordem fálica e mencionamos a usual expressão ‘Além Édipo’ para avançarmos. Assim nos mostra Lacan (2005, p.36) quando eleva a castração ao esquema elementar da divisão do sujeito, onde a barra da proibição incide sobre S e A, elucidando a divisão que resulta na perda irreparável. Porém, tratamos de voltar nosso olhar para o drama, na tentativa de demarcar algo que estaria ‘Além Édipo’ no próprio Édipo. Assim, podemos apontá-lo, já que estamos nos debruçando sobre o feminino, suas sutilezas e excessos, no que tange a Jocasta, entre suas escolhas, funções e conseqüências nesta trama.
Jocasta e Laio entregam seu filho ao Destino, mesmo sabendo o que este lhes reservara. Tal qual a rainha má de ‘A Branca de Neve’, entrega a jovem ao caçador, mas pede seu coração como garantia. Ou mesmo,Cronos que devora os filhos sem deixar rastros para o Destino, tendo este se cumprido, apenas pelo desejo da mulher, de que pelo menos um filho sobrevivesse, matasse e ocupasse o lugar do pai. O que temos no mito de Édipo é uma mãe que entrega seu filho numa suposta castração, sem garantias de que ela se efetivasse, pelo contrário, entrega-o justamente ao Destino já premeditado. Após ter entregue seu filho em nome do amor a Laio – uma vez que o incesto, ao manter o filho no seio da família poderia ser impedido, mas, não o parricídio – Jocasta substitui o rei, quando morto. Recebe em seu lugar, aquele que é aclamado pelo povo por decifrar o enigma da Esfinge, derrotando-a. Não só o acolhe em seu lar, como também, ela o aceita como homem, e dele gera quatro filhos.
Podemos pensar aqui em uma reparação da castração, ou, antes disso, que esta tenha sido apenas suposta, visto que o Destino avisara que o filho retornaria à mãe. No seminário 20, Lacan menciona que pelo fato da mulher ser não-toda, “ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar.” (p.99). Descarta o complementar, que retornaria ao todo, mas ressalta um gozo para além do falo, que pode ser experimentado, mas não dito. Talvez encontremos nos mitos uma dramatização do que seria isso em sua origem. Retiramos da Tragédia, quando o desespero de Jocasta se acentua, à medida que, Édipo, ávido a desconstruir sua história até o S1 que marca seu nascimento: “Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação.” (sem ano, p. 124-125).
Seria o gozo para além do falo, experimentado e que não pode ser explicado? Ou, podemos localizar aí, ainda no suplício para que a verdade não venha à tona, um gozo absoluto que transcende a questão do feminino e do não-todo? Um gozo mortífero, louco, que culmina na morte. Devemos demarcar que não se trata aqui da loucura na vertente da psicose ou de A Mulher, mas de um fazer com a castração que não supõe, a inocência ou o não-saber que está apenas para Édipo nas investigações, mas não para aquela que consente em entregar o filho à morte, sem garantias. O Destino se cumpre, trazendo-o como homem, e também de volta ao ventre, com seus filhos, marcando essa entrega não apenas para findar a castração que se repararia no futuro, mas para viver o gozo proibido. Com a revelação daquilo que é mortífero, só resta à Jocasta a morte. Enquanto que Édipo efetiva a castração do Outro, com a extração dos próprios olhos, não aqui na visão romântica de que sofrera um golpe do Destino, mas liquidando justamente aquilo que não pode ver: A Mulher em suas faces frente ao horror da castração (reparada) – mulher, mãe e avó de seus filhos.
Referências Bibliográficas:
Sófocles. Tragédias Gregas. Edições de Ouro, sem ano.
Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
______. O Seminário, livro 10: a angústia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Marcia Müller Garcez
Marcia Müller Garcez
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