quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sutilezas que deflagram o excesso no Mito ‘Rei Édipo’


Acostumados a designar a Tragédia Grega, de Sófocles – ‘Rei Édipo’, como um regulador da ordem fálica, o restringimos ao campo simbólico, ainda que Lacan tenha avançado na teorização do ‘Complexo de Édipo’ freudiano, com a inclusão da linguagem e dos significantes. Mesmo passando da lógica do Ter para a do Ser, nos referimos ao drama edípico como o que designa a ordem fálica e mencionamos a usual expressão ‘Além Édipo’ para avançarmos. Assim nos mostra Lacan (2005, p.36) quando eleva a castração ao esquema elementar da divisão do sujeito, onde a barra da proibição incide sobre S e A, elucidando a divisão que resulta na perda irreparável. Porém, tratamos de voltar nosso olhar para o drama, na tentativa de demarcar algo que estaria ‘Além Édipo’ no próprio Édipo. Assim, podemos apontá-lo, já que estamos nos debruçando sobre o feminino, suas sutilezas e excessos, no que tange a Jocasta, entre suas escolhas, funções e conseqüências nesta trama.
Jocasta e Laio entregam seu filho ao Destino, mesmo sabendo o que este lhes reservara. Tal qual a rainha má de ‘A Branca de Neve’, entrega a jovem ao caçador, mas pede seu coração como garantia. Ou mesmo,Cronos que devora os filhos sem deixar rastros para o Destino, tendo este se cumprido, apenas pelo desejo da mulher, de que pelo menos um filho sobrevivesse, matasse e ocupasse o lugar do pai. O que temos no mito de Édipo é uma mãe que entrega seu filho numa suposta castração, sem garantias de que ela se efetivasse, pelo contrário, entrega-o justamente ao Destino já premeditado. Após ter entregue seu filho em nome do amor a Laio – uma vez que o incesto, ao manter o filho no seio da família poderia ser impedido, mas, não o parricídio – Jocasta substitui o rei, quando morto. Recebe em seu lugar, aquele que é aclamado pelo povo por decifrar o enigma da Esfinge, derrotando-a. Não só o acolhe em seu lar, como também, ela o aceita como homem, e dele gera quatro filhos.
Podemos pensar aqui em uma reparação da castração, ou, antes disso, que esta tenha sido apenas suposta, visto que o Destino avisara que o filho retornaria à mãe. No seminário 20, Lacan menciona que pelo fato da mulher ser não-toda, “ela tem, em relação ao que designa de gozo a função fálica, um gozo suplementar.” (p.99). Descarta o complementar, que retornaria ao todo, mas ressalta um gozo para além do falo, que pode ser experimentado, mas não dito. Talvez encontremos nos mitos uma dramatização do que seria isso em sua origem. Retiramos da Tragédia, quando o desespero de Jocasta se acentua, à medida que, Édipo, ávido a desconstruir sua história até o S1 que marca seu nascimento: Pelas divindades imortais! Se tens amor a tua vida, abandona essa preocupação.” (sem ano, p. 124-125). 
Seria o gozo para além do falo, experimentado e que não pode ser explicado? Ou, podemos localizar aí, ainda no suplício para que a verdade não venha à tona, um gozo absoluto que transcende a questão do feminino e do não-todoUm gozo mortífero, louco, que culmina na morte. Devemos demarcar que não se trata aqui da loucura na vertente da psicose ou de A Mulher, mas de um fazer com a castração que não supõe, a inocência ou o não-saber que está apenas para Édipo nas investigações, mas não para aquela que consente em entregar o filho à morte, sem garantias. O Destino se cumpre, trazendo-o como homem, e também de volta ao ventre, com seus filhos, marcando essa entrega não apenas para findar a castração que se repararia no futuro, mas para viver o gozo proibido. Com a revelação daquilo que é mortífero, só resta à Jocasta a morteEnquanto que Édipo efetiva a castração do Outro, com a extração dos próprios olhos, não aqui na visão romântica de que sofrera um golpe do Destino, mas liquidando justamente aquilo que não pode ver: A Mulher em suas faces frente ao horror da castração (reparada) – mulher, mãe e avó de seus filhos. 


Referências Bibliográficas:

Sófocles. Tragédias Gregas. Edições de Ouro, sem ano.
Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
______. O Seminário, livro 10: a angústia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

Marcia Müller Garcez

domingo, 30 de julho de 2017

Cine Veredas!

Prazer em participar!

Próximo Cine Veredas está imperdível.
Documentário sobre Lacan
Debatedoras: Ana Paula Gomes e Marcia Müller Garcez
Dia 01/08
Terça-feira às 20:00hs
Mediador: Carlos Eduardo Leal






https://www.facebook.com/carloseduardolealvs/posts/10213891046418305

Quer saber um pouco sobre James Joyce?

Aqui vai o link de um artigo sobre o escritor Irlandês, James Joyce, a partir da abordagem de psicanálise lacaniana.


http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_10/Joyce_por_ele_mesmo.pdf

Psicoses, nós e remendos

Livro: Psicoses, nós e remendos 

Orelha, por Marcelo Veras.


Explorar os novos ambientes em que a psicanálise possa consolidar seus princípios é uma dos objetivos propostos por Lacan quando lançou, em seu texto sobre a fundação da Escola, a expressão psicanálise aplicada. A pesquisa pelo novo tem como função evitar que o saber analítico se torne datado, distante do mundo que o rodeia. Embora não venha dos bancos universitários, a formação do analista ganha forte apoio quando dialoga com os demais saberes. Esse livro de Marcia Müller Garcez chega ao leitor com a proposta de sustentar a teoria psicanalítica das psicoses privilegiando precisamente o novo e as peculiaridades de um saber fazer tanto do lado da clínica quanto do lado da própria psicose.
Marcelo Veras



Sinopse, pela autora.

O livro trata do tema das psicoses, demarcando o percurso de Lacan e seu avanço no campo da topologia. Conta com casos clássicos onde há o desencadeamento da psicose, como ‘Aimée’ e ‘Schreber’, assim como, o caso do ‘Homem dos Lobos’ que até hoje levanta importantes discussões diagnósticas. Há um investimento no manuseio dos nós, em sua formação borromeana, a partir de sua confecção para circunscrever esse universo topológico. Ao tratar dessa topologia nodal, é possível mergulhar no complexo conceito de sinthoma, trazendo à luz a noção de escabelo a partir de exemplos como: de James Joyce, Salvador Dalí e de uma análise levada a termo, destacando o tema dos finais de análise. O diferencial desta obra está também no uso dos nós como instrumento analítico e de direção de tratamento, considerando casos de psicose, onde ainda não se faz possível uma construção pela via do sinthoma. Nessas situações clínicas a invenção pode estar mais do lado do analista do que do próprio sujeito, podendo o analista fazer uso de um nó-remendo, emergencial, em casos de desencadeamentos eminentes, para que a aposta no sinthoma possa seguir. Para situar tal intervenção, conta-se com dois exemplos clínicos onde se destaca esse remendo operado pelos nossos colegas psicanalistas. Essa obra abarca o ensino lacaniano no que tange ao tema das psicoses, partindo dos seus primórdios – desde a tese de doutoramento de Lacan na psiquiatria – e culminando no derradeiro ou ultimíssimo ensino, onde a prática clínica se orienta pelo real.
Marcia Müller Garcez

 * O livro se encontra no site da Editora Prismas e Livraria da Travessa.


sábado, 10 de dezembro de 2016

A Procrastinação na adolescência e sua relação com o Discurso Capitalista


Temos esmiuçado o texto de Jacques-Alain Miller (2015) ‘Em direção à adolescência’ na Unidade de Pesquisa Clínica e Política do Ato, além de articulá-lo com outras leituras. O texto é uma proposta de Miller como orientação de trabalho para a Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança, mas acaba por abarcar e contagiar toda a nossa comunidade psicanalítica, incluindo o próximo Encontro Brasileiro, intitulado ‘Adolescência, a idade do desejo’.
Um recorte do referido texto e que foi trabalhado por mim, em nossas discussões, diz respeito à procrastinação na adolescência. Após discorrer sobre a adolescênciaenquanto uma construção e toda a controvérsia que a sua definição implica, Miller circunscreve o campo da psicanálise e o que este já se ocupa em relação à adolescência logo de partida, a saber: a saída da infância; a diferença dos sexos; e a imiscuição do adulto na criança. Partimos então, para o que ele vai apontar como novo na adolescência, e consequentemente para a psicanálise, e que decorre de uma mutação na ordem simbólica. Esse novo apontado por Miller implica: uma procrastinação; uma autoerótica do saber; uma realidade imoral; uma socialização sintomática; e um Outro tirânico. Esses cinco aspectos são articuláveis entre si e optei por destacar o discurso da atualidade, a relação de consumo e o elemento pressa – que parece paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir da dinâmica do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos seguir as pistas deste paradoxo pressa x procrastinação. Cabe então, fazer uma passagem rápida pela ideia dos discursos em Lacan.

Os quatro discursos
O primeiro dos discursos a ser explorado por Lacan(1992 [1969-70]) foi o do mestre, apoiado na teoria de Hegel, a partir da dialética do senhor e do escravo. O senhor dirige-se ao escravo, pois é ele quem detém o saber. Ele é essencial para a articulação dos demais e é considerado também como o discurso do inconsciente, pois o comanda, tratando de buscar um saber que escamoteie a verdade do sujeito e renuncie ao resto. Se fizermos um quarto de giro no discurso do mestre, vamos encontrar o discurso da histérica. A problemática apontada por Lacan é que o saber não-todo que o discurso do inconsciente ou do mestre tenta encobrir é justamente aquilo que escapa, o que pode produzir a causa de desejo fazendo com que o funcionamento falhe. É o discurso histérico que fará a passagem da resposta cristalizada do discurso do mestre para a abertura à pergunta sobre o desejo. Uma passagem do enunciado à enunciação.  
Ao fazermos mais um quarto de giro nesses esquemas construídos por Lacan, passamos ddiscurso da histérica, para o discurso do analista, que denota o que ocorre na atividade clínica. Ele muito nos interessa pelo fato de representar o avesso do discurso do mestre, sendo o que pode oferecer uma barreira ao discurso contemporâneo.
O quarto discurso proposto por Lacan, o universitário, situa o saber como agente, como um pretenso saber todo, que produz sujeitos, cuja divisão é desconsiderada. O aluno como objeto a é um produto,sendo aquele que nada sabe e para o qual o saber se dirige. 

Discurso Capitalista e procrastinação
Após ter elaborado a teoria dos discursos, Lacan formula a quinta modalidade, uma variação do discurso do mestre conhecida como discurso contemporâneo ou do mestre moderno: o discurso capitalista. Primeiramente, ainda enquanto teoriza sobre os quatro discursos, ao final do Seminário 17, Lacan situa o discurso universitário como o do mestre moderno (p.195). Em 1972, numa conferência em Milão ele o nomeia de capitalista e apresenta seu esquema. A grande novidade desse discurso é que todos os elementos são articulados apresentando uma nova dinâmica, a partir de uma organização – ou reorganização – das flechas.
Observando o movimento das flechas, percebemos a dinâmica capitalista que denota a relação direta do sujeito contemporâneo com os objetos de consumo, em um acesso imediato. Notamos também que, em relação ao discurso do mestre, a variação se encontra na inversão do lugar do agente e da verdade. O sujeito ($) com suas faltas, dividido, demanda ao significante-mestre (S1) que imediatamente se dirige ao saber (S2), o qual produz os objetos a serem ofertados ao sujeito recomeçando o ciclo, produzindo uma infinitização.
Esses objetos são os gadgets que vemos pululando na contemporaneidade. Se acompanharmos as flechas, vemos um movimento infinito, tal como o afirma Aflalo(2008): “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido” (p. 83). Com este último discurso apresentado, esbarramos no grande paradoxo da lógica capitalista na atualidade: diante da oferta incessante do mestre moderno, algo precisa ser produzido, a fim de suprir a falta, com uma pressa para que a angústia não possa emergir; ao mesmo tempo, o excesso de produção e seu transbordamento de gozo acarretam dificuldades discursivas, que podem ser testemunhadas nas precariedades simbólicas, típicas do século XXI. É uma nova modalidade de discurso que não apresenta apenas uma variação do discurso original – do mestre ou do inconsciente – no intuito de evitação do real, mas demonstra uma organização de ofertas e demandas aceleradas e que na adolescência podemos fazer a leituracomo um “prolongamento da adolescência” apontado por Miller (2015).
É essa mesma velocidade que indica o outro ponto tratado como novo no texto ‘Em direção à adolescência’, que é a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, o saber está no bolso e de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  Não há mais relação com o Outro que passa a ser tirânico, e esse leque resulta nsocialização sintomática. Todos esses aspectos que indicam o que é novo na adolescência – e para a psicanálise na relação com ela – parecem partir dprocrastinação que se dá na contrapartida da pressa que escamoteia o real de uma passagem para o que seria uma vida adulta.


Referências:
AFLALO, AgnèsDiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.

LACAN, JacquesO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].

MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

OBS: TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG DO ICP-RJ COMO FRUTO DE ESTUDO DA UNIDADE DE PESQUISA CLÍNICA E POLÍTICA DO ATO. DISPONÍVEL EM: https://icprj.wordpress.com/2016/10/15/a-procrastinacao-na-adolescencia-e-sua-relacao-com-o-discurso-capitalista/

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O apagar das luzes: suicídios na adolescência



Como pensar na idade do desejo, sem levar em consideração seuefeitos nefastos? Pesquisas apontam que além do crescimento dos suicídios em geral, segundo o Ministério da Saúde, cresce o ritmo em que ele se dá na adolescência. 
Marcela Antelo no texto ‘Idade do Desejo’ ressalta que “o desejo é a consciência do apetite. Que outra evidência real golpeia o corpo na flor da idade que a consciência perturbadora do apetite?” O desejo então, enquanto perturbador, onde o real do sexo se desvela, joga o sujeito na errância e nas vias da pulsãoMiller no texto ‘Em Direção à Adolescência’ vai apontar como novo na adolescência, cinco aspectos: procrastinaçãoautoerótica do saberrealidade imoralsocialização sintomática; e Outro tirânico. Pontos articuláveis entre si atravessados pelo discurso da atualidade na relação de consumo e pressa  paradoxal à procrastinação. Se pensarmos a pressa a partir do discurso capitalista, proposto por Lacan, podemos entender o paradoxo pressa x procrastinaçãona velocidade do consumo e troca de objetos – gadgets – que vemos pululando na contemporaneidade, tal como o afirma Aflalo: “produz-se, então, um trajeto de ida e volta em torno de um gozo perdido”. Como destaca Miller, a adolescência tem um ponto de partida – a puberdade tratada por Freud em ‘Três Ensaios’ – mas não tem um ponto de chegada. Esse não saber onde chegar, articulado às transformações do corpo e atravessado pelo consumo produz um prolongamento da adolescência. É essa mesma velocidade do discurso capitalista que indica também a autoerótica do saber. O saber não é mais o objeto do Outro, não há mais negociação, está no bolso de imediato, nessa mesma lógica de consumir e consumir-se.  
O suicídio do jovem pode ser só e silencioso, mas pode ser contagiante também. É o que mostra a pequena cidade inglesa, Bridgend, onde ao longo dos anos, desde 2007 até hoje contamos 79 suicídios de jovens, quase todos por enforcamento. Trata-se de um movimento coletivo? Talvez uma cadeia, um contágio sem explicação, com apenas especulações sobre a perda de importância e a queda financeira da cidade, ou de que a própria mídia ao noticiar as mortes seria a motivadora.  Esse é um exemplo de uma solução para o desamparo que se transmitiu por uma via de acesso que serviu a muitos. Um saber que aparece diante da angústia da falta de conectividade com o Outro. Os jovens se conectaram através da morte e do mistério implicado nos seus atos.
Lucíola Macedo toma o termo ‘desenraizamento’ de Hannah Arendt, como “o que convoca a deriva, a errância, um avesso do que amarra”, sendo importante para situar os novos destinos da pulsão de morte. Como pensar o suicídio na adolescência e as possíveis inferências da psicanálise, uma vez que o ato já se revela como posto?
Muitos jovens conseguem, apesar da socialização sintomática e do ‘desenraizamento’, fazer até um modo de vida, uma socialização. Mas, há os que não. Há os que só lhes resta o apagar as luzes, diante do golpeamento no corpo da presença perturbadora do desejo, em sua forma nefastaA fantasia parece não contornar o pulsional intensificado por esse não sabere ter o objeto no bolso pode não dizer nada sem o Outro. Para além de incluir o suicídio na pauta sobre a adolescência, – é preciso falar sobre isso – pensar o que a psicanálise pode oferecer ao adolescente, frente ao desamparo. Não se curvar às dificuldades impostas pelo discurso capitalista e sua pressa, e oferecer lugar à adolescência na cultura e na cidade. Traçar um ponto de ancoragem para que a errância não circule no vazio do saber, e possa se ancorar, ainda que cambaleante, antes do apagar das luzes.

Marcia Müller Garcez

Referências:
AFLALO, ADiscurso capitalista. In: Scilicet: os objetos a na experiência psicanalítica, AMP, Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 83-86, 2008.
ANTELO, M. A idade do desejohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/marcelaantelo.
FREITAS. L. Juventude e trauma: a experiência do desenraizamentohttp://www.encontrobrasileiro2016.org/luciolafreitas.
LACAN, JO Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992 [1969-70].
MILLER, Jacques-Alain. Em direção à adolescência. Minas com Lacan, 2015. Disponível em: http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sobre a transferência

 CONFERÊNCIA XXVII – TRANSFERÊNCIA

(Freud 1915-17)

Freud deu nome de transferência à conferência em que abordou a prática, a clínica, a qual se referia como terapia. Não poderia encerrar a série de conferências sem incluir esse fato novo. Freud toma a transferência como novidade, surpresa.

Ele levanta então a seguinte questão: onde os fatores do adoecer darão lugar a influência terapêutica?

A transferência é considerada por ele como característica universal, já que “ deve-se atribuir a toda pessoa normal uma capacidade de dirigir catexias libidinais às pessoas.” A tendência a transferência nos neuróticos é apenas um aumento extraordinário dessa característica.

A transferência é tratada por Freud nessa conferência como um instrumento na estratégia de remover a resistência, não sendo mais eficaz por meio de sugestão ou recomendação. Remover as resistências para tornar consciente o inconsciente.

A resistência deriva de uma repressão que tentamos solucionar ou que se realizou anteriormente. Há um conflito entre essa repressão e a libido, onde o sintoma encontra sua via. Freud nos diz que a solução não seria um desses poderes predominar, mas que eles possam lutar em pé de igualdade, como se ele estivesse localizando um ponto na interseção desse conflito.

O mesmo faz quando coloca o conflito no âmbito social, que no contexto da época, a moralidade predominava. Ele aponta que mesmo se o indivíduo vivesse em uma sociedade com total liberdade sexual (o que podemos facilmente transpor para os dias de hoje), ainda assim o sintoma persistiria, pois não é o fato de uma das tendências triunfar sobre a outra que o conflito seria solucionado. Constatamos essa suposição de Freud nos sintomas modernos – ansiedades, pânicos e outros. O sintoma encontrou caminho mesmo em uma sociedade mais liberal.

Apesar de Freud tentar circunscrever todos os pontos desse fato novo – a transferência – ele se depara com um impasse, algo impossível de saber acerca dela: as neuroses narcísicas. “Em geral, um homem só é acessível, desde que seja capaz de uma catexia libidinal de objetos; e temos boas razões para reconhecer e temer no montante de seu narcisismo uma barreira contra a possibilidade de ser influenciado até mesmo pela melhor técnica analítica.” Ainda conclui que mesmo mediante o auxílio da transferência, os esforços terapêuticos não tem êxito nas neuroses narcísicas.

Para concluir, ressaltamos no texto o momento em que Freud desloca o trabalho de recordações e a atenção aos sintomas para o fundo da cena, afirmando: “Não é incorreto dizer que já não mais nos ocupamos da doença anterior do paciente, e sim de uma neurose recentemente criada e transformada, que assumiu o lugar da anterior.” Chamamos essa passagem sobre a neurose de transferência de ficção da psicanálise.

Marcia Müller Garcez